Arquivo do Autor para lnascime

23
Jun
09

Outro acaso? (ou “455nm ≤ λ ≤ 492nm”)

Nunca mais te amarei assim
Com o coração palpitante
Como oração suplicante
Que se reza diante do fim

Te amarei como a uma santa
Dessas que sustentam andores
Junto às quais a Igreja canta
Ao bom Deus, eternos louvores

Apostarei alto na tua santidade
E farei ao Pai pedidos tantos
que meu anjo te prestará favores

E calarei coração e vontade
E buscarei a Comunhão  dos Santos
À qual anseiamos os pecadores

* * *

Mas não me esquecerei da vela que
Quase diariamente estivera entre
Meus olhos e os teus

Sobre o local santo onde ainda
Vislumbro o Centro da História e um
Desencanto ligeiro e fecundo.
.
28
Fev
09

Apenas um acaso ordinário (ou Às quaresmeiras do Barão)

Nunca mais te amarei assim
Com o coração palpitante
Como oração suplicante
Que se reza diante do fim

Te amarei como a uma santa
Dessas que sustentam andores
Junto às quais a Igreja canta
Ao bom Deus, eternos louvores

Apostarei alto na tua santidade
E farei ao Pai pedidos tantos
que meu anjo te prestará favores

E calarei coração e vontade
E buscarei a Comunhão  dos Santos
À qual anseiamos os pecadores
* * *
Mas sempre haverá abraços de vento
Para celebrar a felicidade dos dias tristes
E aliviar a aridez dos sorrisos rasos

Nisto, entenderei que
“o Amor não procura seu próprio interesse”
(ou, pelo menos, tentarei).
19
Fev
09

Let the right star in

Vi, recentemente, dois filmes com o cliché “garoto encontra garota”: “Stardust – O Mistério da Estrela” e “Let the right one in” (acho que o nome que apareceu num festival brasileiro foi “Deixe ela entrar”, mas vou me referir ao filme como LTROI).

[CUIDADO! ESTE POST CONTÉM SPOILERS SOBRE OS FILMES]

Em Stardust, Tristan, um rapaz de aldeia de conto de fadas e que não conheceu a mãe, vê uma estrela cair numa terra proibida e promete trazê-la à moça mais bela das redondezas, Victoria, se ela se casar com ele. Em LTROI, um garoto, Oskar, filho de pais separados e constantemente agredido pelos colegas de escola conhece uma garota, Eli, que se muda para seu prédio.

Victoria não dá a mínima atenção ao infeliz Tristan, que parece estar apaixonado só pela aparência dela (ela, por sua vez, parece ter uma personalidade rasa como um pires de café); a estrela que Tristan vai buscar é lindamente antropomórfica e  se chama Yvaine, mas é teimosa e rabugenta e não gosta muito da idéia de ser arrastada como um troféu até a Vila do Muro.

Oskar tem 12 anos, nenhum amigo e vários problemas de agressividade reprimida; Eli tem 12 anos, como Oskar, mas faz muito mais tempo que ela parou nessa idade…

Em Stardust, Tristan tem que passar por maus bocados, pois há várias pessoas interessadas no coração de Yvaine (literalmente) e ele demora até descobrir o que significa o brilho que ela irradia na sua presença (apesar de um pouco extrapolado, acho que o filme me ajudou a entender melhor o que seria o tal “brilho no olhar” que serve como indicador de viabilidade de um relacionamento – embora eu ache que esse indicador é superestimado e pode ser superado por saudável convivência ordinária).

Em LTROI, Eli ensina a Oskar que ele deve bater de volta e mais forte ainda em seus agressores. Apesar de ser, perceptivelmente, uma má influência para o garoto, percebe-se, durante o filme, que ela  faz todo o possível para fazer a relação  funcionar:  aceita um doce que  ele lhe oferece, apesar de saber que vai lhe causar mal e  até mesmo cede à provocação de acompanhar Oskar à casa dele sem que ele lhe convide formalmente, mesmo sabendo que isso lhe causaria hemorragia por todo o corpo – a propósito: eu já disse que Eli é uma vampira?

O fato de Yvaine ser, literalmente, uma estrela e Eli, uma vampira, não tem muita importância para esse post, pois o que me chamou a atenção mesmo foram as dificuldades de relacionamento levantadas pelos filmes.

Tristan estava apaixonado por uma idéia (Victoria), e precisou conhecer uma pessoa real – ainda que a pessoa real fosse uma estrela cadente – para descobrir o que realmente importa num relacionamento. Talvez ele chegasse um dia a descobrir que Victoria também era real, mas acho que os dois estavam interessados em coisas distintas demais para que chegassem a realmente se conhecer.

Oskar, por sua vez, encontrou alguém que parecia amá-lo realmente e se esforçava para fazer o relacionamento funcionar, e ele correspondeu a esse amor, mas… a que custo? Não me parece uma boa idéia prender-se a alguém que nunca vai amadurecer a seu lado: ou você também deixa de amadurecer ou então tenta escapar, para poder crescer…  mas será que aquela que se esforçou tanto para que você a deixasse entrar permitirá que você saia tão facilmente?

E se o pobre Tristan, depois de conhecer Yvaine e se apaixonar por ela, finalmente compreendesse, racionalmente, que seu lugar não era mesmo ao lado de Victoria, mas terminasse descobrindo que Yvaine não queria saber dele? Será que, depois da desilusão ele deixaria qualquer uma entrar? Será que se trancaria no castelo em Stormhold?

Não sei. Mas, se eu pudesse dizer algo a Tristan numa situação dessas, apenas diria: “Ânimo, rapaz! Você é herdeiro da realeza! Há de encontrar alguém que corresponda às suas nobres intenções!”

Hmmm… será que Tristan é realmente tão nobre assim?

11
Fev
09

Assimetrias

Este post poderia tratar da função exponencial, que é assimétrica qualquer que seja o ponto de referência tomado e não se sai muito bem numa festa porque dá no mesmo se integrar ou não [o pessoal da área de exatas há de entender...]

Ou poderia tratar de qualquer outra coisa encontrada na natureza: desde as flores de quaresmeira e as pedras ornamentais até as corujas do ártico e o vizinho do lado (que, diga-se de passagem, ainda não conheci depois de me mudar para a nova república – e talvez nem venha a conhecê-lo).

Ou poderia tratar de irmãos gêmeos.

Mas não faz diferença o exemplo que eu tomar, pois o mundo É assimétrico (e não simétrico nem anti-simétrico). Ponto. [Obviamente, construções teóricas e o aspecto macroscópico de alguns construtos podem ser simétricos - não sou tão cego ou obstinado a ponto de não reconhecê-lo].
E, conforme sugeri no post do dia  07 de fevereiro (embora não o tenha explicitado), as relações humanas também são assimétricas. Acredito que os motivos dessa assimetria são muito simples:

  • Pessoas são diferentes;
  • Pessoas conhecem outras pessoas além de você;
  • Pessoas têm histórias distintas;
  • Etc.

É óbvio, portanto, que não podemos exigir dos outros o mesmo que lhes damos. Na verdade, numa relação qualquer, só podemos exigir dos outros o mínimo necessário para que, de fato, exista uma relação;

Mesmo a relação existente entre um baleeiro esquimó e um guarda de fronteira da Coréia do Norte é assimétrica: quem sabe que tipo de postura cada um tem em relação ao resto do mundo? Talvez um deles evite jogar lixo no chão achando que, com isso, vai ajudar a diminuir o tão falado efeito estufa [cujos efeitos não serão alvo de discussão nesse blog] e, assim, impedir o derretimento do Ártico.

Será que o esquimó faria alguma coisa pelo guarda norte-coreano? E o contrário, ocorreria? E você, faria algo por algum dos dois? Em troca de que?

Agora, levando a assimetria ao nível metafísico (admito que meu conhecimento teológico é apenas o bastante para me acusarem de praticar teologia de bar):

E para Deus, você faria alguma coisa? Isso faria alguma diferença para Ele?

Acho que a resposta para a segunda questão é não, e a razão é simples: a relação entre Deus e o homem é plenamente assimétrica. Explico (ou tento):

  • Deus é infinito (isso é uma simplificação dos atributos divinos);
  • O homem é finito;
  • Todos os dons que temos, e que também são finitos, vieram de Deus;
  • Logo, o que temos para oferecer a Deus já pertence a Ele.
  • Então Ele não precisa de nós!

Devemos, portanto, ignorar a Deus porque Ele não precisa de nós? Acho que não, pois Ele quis nos criar mesmo sem precisar. Para que pudéssemos participar de seu Amor.

Creio que a chave para aceitar as assimetrias está justamente no Amor. Como imagem e semelhança, também somos chamados a esbanjar prodigamente o Amor nas nossas retas relações, mesmo que não sejamos correspondidos.

Mas será que somos capazes de amar sem esperar nada em troca? Embora imagem e semelhança, nossa generosidade não é infinita e uma hora terminaremos por nos perguntar “O que estou ganhando com isso?”.

Às vezes, os ganhos não são imediatamente perceptíveis e parecem meio enterrados por uma camada de desilusão. Mas estão lá: na forma de virtude ou de aprendizado.

Que tal procurar uma pá?

07
Fev
09

Love will tear us apart

Volto a postar com a última frase do post “Uma semana em São Paulo com Gustavo Corção”

“A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão.”

Essa frase me levou a pensar um pouco no que consiste reconhecer em cada pessoa um outro (ou próximo). Lá vão as breves considerações:

1. Será que descobrir o outro consiste em simplesmente respeitar o espaço de cada um?

Parece-me razoável supor que parar de tratar os demais como uma extensão de nós mesmos é um passo fundamental para chegar ao outro: todo o mundo quer ser ouvido quando fala alguma coisa, por mais boba que pareça (ou por mais boba que seja mesmo) – o problema é que ouvir implica prestar atenção ao que o outro diz e estabelecer com ele um diálogo ao invés do acordo tácito em estabelecer dois monólogos que tanto ocorre nos dias de hoje (e talvez nos dias de ontem também) [Nota: essa idéia foi tomada de uma pessoa bem mais sábia que eu, mas não me lembro mais quem foi que disse].

Talvez respeitar o espaço do outro consista em deixá-lo em paz, lá no canto dele… em alguns casos, é isso mesmo! Mas… e se o outro visivelmente precisar de algum tipo de auxílio e, por algum motivo (que pode ir do orgulho à sua irmã, a vergonha), não conseguir pedir?

2. Descobrir o outro seria o mesmo que desejar seu crescimento e fazer o possível para ajudá-lo?

Mais uma suposição que me parece razoável: se eu ajudo o outro, estou sendo seu próximo! (ou o tornando o meu próximo). O problema em ajudar o outro é que ele nem sempre retribui com o reconhecimento. Muitas vezes, o outro nem perceberá que foi ajudado, ou pior: reconhecerá que foi ajudado, mas dirá, na hora de uma desavença qualquer, que “não pediu ajuda de ninguém e que podia ter saído sozinho daquele poço de areia movediça!”… Nessas horas, deve doer um bocado ver essa criatura ingrata se voltar contra aquele que a ajudou a se tornar melhor.

Talvez uma boa intenção não seja o suficiente para poder dar uma ajuda sincera – pelo menos não sem a disposição necessária para ajudar sem esperar nada em troca.

3. Será que sacrificar-se pelo outro é o caminho de sua descoberta?

Hmmmm… qual a diferença entre ajudar o outro e sacrificar-se por ele? Segundo eu mesmo, neste ponto em particular, a ajuda implica dívida, mesmo que subentendida, pois a disposição interior do que ajuda é a de se lembrar que fez algo pelo outro. Daí surgem pensamentos do tipo “Ah… eu fiz tanto por fulano! Será que ele não reconhece?“. Acho que já sabemos onde esse tipo de postura leva as pessoas…

Em minha opinião (e é disto que se trata esse blog), o sacrifício seria o quilômetro a mais que se anda com o outro quando este só lhe pede um. Nesse caso, o próprio indivíduo que ajuda já pagaria a dívida da ajuda a si mesmo. Mas pagar como? Com o que? E onde fica a justiça?

Talvez a resposta seja o Amor.

E o Luís escreveu sobre isso um dia desses.

(por falar nisso: Feliz Aniversário, Luís!)

17
Jan
09

Uma semana em São Paulo com Gustavo Corção

[Post originalmente publicado em 11 de novembro de 2007 no blog Cronicamenteexponencial]

Passei a última semana em São Paulo, participando de uma oficina sobre Gerenciamento de Risco e Segurança em Saúde e do III Congresso Brasileiro de Engenharia Clínica (pode-se dizer que este foi uma espécie de continuação daquele – até porque foram planejados para isso mesmo).

Os eventos foram muito bons, mas intenção deste post não é falar sobre eles, mas sobre a semana da minha cabeça em São Paulo (ou alma, ou coração, ou os três – ainda tenho que sistematizar meu entendimento sobre essas realidades).

Junto com minha bagagem, levei o livro A Descoberta do Outro, de Gustavo Corção, que já estava na metade exata das páginas. Não vou escrever uma resenha sobre o livro (até porque ainda não tenho habilidade para tal – e talvez nunca a tenha), mas devo dizer que houve uma espécie de sinergia entre a leitura de algumas partes do livro e minha translação pela capital paulista.

Depois da terça-feira, enquanto tomava o ônibus para a casa da minha tia (onde estava hospedado) – talvez sob influência do livro, e também em decorrência de vários pensamentos sobre os quais não covém escrever aqui (não agora… talvez nunca) – eu decidi observar as pessoas que eu encontrava durante meus deslocamentos em São Paulo. Percebi o óbvio de que cada pessoa era diferente da outra, mas junto com o óbvio também me vieram alguns pensamentos ou percepções específicas. Deixo aqui dois deles:

  1. Encontrei/vi vários olhos que pareciam dizer “Como estou cansado…”: em alguns deles, principalmente nos fins de dia, dava para ver que o cansaço era fadiga mesmo, mas alguns olhos deixavam entrever uma espécie de fadiga espiritual (serão os olhos realmente janelas da alma?) e seus donos pareciam buscar algo que não encontravam no dia-a-dia. Acho que era o mesmo olhar que eu mesmo já devo ter visto várias vezes no espelho e que só a Graça me impede de encontrar todos os dias. Foi muito útil para eu perceber que o outro, que eu nunca conhecerei, também tem problemas que eu nunca conhecerei e que, afinal, meus problemas não são o fim do mundo (principalmente porque o mundo, como me fez perceber Corção, não é uma sombra de meu interior);
  2. Na terça, vi uma rapaz de aparência ordinária (assim como eu) cochilando de boca aberta no ônibus e fiquei a pensar sobre a vulnerabilidade que o cansaço nos traz, e que nos leva mesmo a cochilar de boca aberta no meio de um monte de estranhos – me pareceu bastante desconcertante e eu parei de olhar o rapaz cochilando de boca aberta. No dia seguinte (ou na quinta – não me lembro direito), eu peguei o mesmo ônibus e vi uma garota muito bonita com olhos do tipo “estou cansada e fatigada” que me fizeram desviar o olhar com receio de transformá-los no tipo “o que você está olhando? ninguém pode ficar cansado em paz?”… um tempo depois, olhei de novo para ela e percebi que ela estava cochilando com a boca aberta – eu até tentei, mas não pude evitar a íntima constatação de que cochilar com a boca aberta num ônibus é desconcertante mesmo em uma bela garota.

Como vou devolver A descoberta do outro amanhã, deixo aqui uma pequena citação do livro:

“A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão.”

11
Jan
09

Era uma vez dois meio gêmeos…

Hoje, completa-se exatamente um ano que meu irmão e eu nos separamos.

Ele levou o aparelho de som. E eu fiquei com os CDs.

Na época em que escrevi o último post, ainda se iam completar 2 meses desde que nos havíamos separado. Eu ainda estava me habituando a comprar comida só para um e acho que ele ainda estava sem internet em casa. E eu estava prestes a me mudar para a república onde habito agora (a gloriosa República dos Cachorros Magros).

E eu ainda tinha que responder quase diariamente às perguntas: “Como está a vida morando longe do seu irmão?” ou “Vocês vão se acostumar a morar longe um do outro?

Eu sempre respondia, respectivamente, algo como: “Ainda estou me acostumando a comprar comida só para um.” e “Sim, afinal, somos gêmeos, mas não siameses. E eu ligo para casa sempre.

Hoje, já me habituei a comprar comida só para um. E meu irmão tem internet em casa, de modo que conversamos, via Skype, mais de uma vez por semana (às vezes, conversas de mais de uma hora de duração).

Nossos caminhos continuam divergindo, e assim continuarão, em certos aspectos, até o fim da vida.

Depois de um ano, a maior parte das pessoas já começou a perceber que somos dois indivíduos, não dois meio gêmeos.

Feliz aniversário de individualidade pública, Roger!

AVISO AOS LEITORES: Como a proposta inicial do blog não foi em frente, tomarei oficialmente o blog só para mim, transferirei meu Cronicamentexponencial para cá  e tentarei ressuscitar minha curtíssima vida de blogueiro, mas manterei o nome Meio Gêmeos (ou seja: agora o Meio Gêmeos trata somente do que me vier à cabeça).

10
Jan
09

O bunker dos gêmeos

Este é o último post do Meio Gêmeos mantendo a proposta antiga e, aqui, quero tratar especificamente de um tema bastante relacionado a famílias (ou parcelas delas) muito unidas: a auto-suficiência.

Irmãos bem próximos, que cresceram muito unidos (de modo particular os gêmeos) podem tender a se tornar algo similar a uma sociedade auto-suficiente.

Enquanto morando juntos, sempre têm à disposição alguém com quem brincar, estudar, desabafar, ir ao cinema, reclamar desinteressadamente, brigar sem maiores conseqüências…

Um membro dessa sociedade (fundada em valores comuns) ajuda o outro a enfrentar as dificuldades do dia a dia e a resistir às influências externas que possam causar uma perturbação no conjunto de valores comuns. Cada membro funciona para o outro como uma bússola que aponta um referencial comum ou uma âncora que impede que as fortes correntezas deixem o outro à deriva. A sociedade auto-suficiente é uma fortaleza de uma reserva moral e cultural.

Mas devo repetir que a sociedade auto-suficiente é uma fortaleza de uma reserva moral e cultural bem específicas, de modo que a resistência a perturbaçòes se aplica a todas as situações: resiste-se ao vício, sim!; mas também se pode resistir à virtude, se esta não for desejada por todos os membros da sociedade.

E resiste-se a abrir os portões da fortaleza. Ninguém entra. Ninguém sai. (até parece a máfia, mas sem crime).

E os membros da sociedade terminam se esquecendo que a auto-suficiência é relativa. E deixam de treinar habilidades de sobrevivência no mundo externo, como empreender uma conversa interessante (pois não sabem o que é interessante fora dos limites da sociedade) ou fazer amigos (pois a sociedade até acolhe alguns, mas não percebe o quanto eles são necessários).

Mas essas sociedades terminam se desmanchando. E os membros terminam precisando aprender a se relacionar com membros estranhos ao seu habitat natural.

E terminam aprendendo. De um jeito ou de outro.

08
Mar
08

Reações

Você, caro leitor que nasceu sozinho, já encontrou gêmeos alguma vez na vida? Qual é a reação que você costuma ter quando vê duas pessoas “iguais”? [Ai de quem nos chamar de iguais sem usar aspas!]

Eis algumas reações (naturais ou complexas) de algumas pessoas (reais ou imaginárias):

PERPLEXIDADE

[Para um amigo ou estranho que esteja próximo]
-Noooosssa! Tem dois! Iguaizinhos! Olha lá!

[Para um dos gêmeos, se o conhecer]
-Noooosssa! São iguais! Você nunca disse que tinha um irmão gêmeo! A propósito: qual dos dois é que eu conheço?

[Para os gêmeos, se já conhecer um deles e somente um]
*Arregala os olhos e deixa a boca semi-aberta……………………….(vários segundos)………………………………. sai do estado de choque:
-Nossa! Eu não sabia que você tinha um irmão gêmeo. Desculpa aí a reação… [acreditem, já aconteceu e foi muito engraçado].

CURIOSIDADE

[Para um amigo ou estranho que esteja próximo]
-Noooosssa! Tem dois! Iguaizinhos! Olha lá!
-Será que são gêmeos?
-Eu vou lá perguntar!

KAWAI [ou o efeito Hello Kitty, já mencionado na Vantagem #1]

-Ai, que bonitinho! Gêmeos!
-É mesmo! Que gracinha!

INVEJA (ou somente querendo puxar conversa)

-Ah… eu também queria tanto ser gêmeos… [sic]

INDIFERENÇA ABSOLUTA

*olha discretamente, quase de relance [...]

INDIFERENÇA RELATIVA

-E aí, dois! Não vou arriscar nomes, pois não sei diferenciar vocês.

SEGURANÇA INJUSTIFICADA (ou seja: cara-de-pau sem sorte)

-[Para o gêmeo L] -Oi, R!
-[Para o gêmeo R] -Oi, L!

SEGURANÇA, JUSTIFICADA (ou cara-de-pau com sorte)

-[Para o gêmeo L] -Oi, L!
-[Para o gêmeo R] -Oi, R!

IRA

- Eu odeio gêmeos! Sumam da minha frente!!!

Hmmm… acho que acabaram as idéias e eu comecei a inventar . Mandem mais reações pelos comentários, se tiverem alguma para acrescentar.

PS: Façam uma forcinha e tentem aprender a diferenciar seus amigos gêmeos: eles gostam de ser tratados como duas pessoas diferentes e vão lhe tratar melhor depois que você tratá-los como dois indivíduos.

11
Fev
08

Um mês como ordinário completo

Hoje, completa-se um mês que meu irmão foi embora (não se preocupem, não vou ficar choramingando uma contagem mensal).

Quero aproveitar o aniversário de uma florzinha roxa, grande amiga minha (mas não tão próxima de meu irmão), para falar sobre uma das complicações em se ter um irmão gêmeo: ser cumprimentado por estranhos!

-Caminhando tranqüilamente pela rua, ou pelos corredores do ambiente de estudos/trabalho, você, de repente, nota uma pessoa vindo na sua direção e olhando indisfarçadamente para você. Mas você não a reconhece! E vem a dúvida: por que essa pessoa está olhando para mim?

  • Será que estou sujo/mal vestido hoje?
  • Será que me vesti bem demais hoje?
  • Será que essa pessoa do sexo oposto está flertando comigo? (“até que é bonitinha…“)
  • Será que essa pessoa do mesmo sexo está flertando comigo? (“Aiai.. espero que não, espero que não…”)

Quando a pessoa se aproxima, geralmente já dá para descartar as hipóteses acima só pela postura. Mas a pessoa começa a andar um pouco mais devagar quando chega perto e se dirige a você com um “Tudo bem?” ou “E aí… beleza?” sem lhe chamar de coisa alguma.

  • Essa pessoa me conhece! Mas eu não consigo me lembrar dela! Será que a conheci numa festa enquanto estava bêbado? [ok, quem nos conhece notará que esse último trecho foi só para deixar o texto mais interessante para os demais...].

Você tenta se lembrar mas não consegue. Geralmente, basta responder um “Tudo bem, e você?” ou “Beleza!” e/ou acenar com a cabeça e cada um segue seu caminho sem trocar mais palavras.

Ah! Mas a curiosidade é cruel: “Quem era aquela pessoa?” – Paciência… o momento já passou. Talvez a memória ajude depois.

Com gêmeos, é a mesma coisa. Mas a freqüência de ocorrência desses eventos pode ser muito maior!

Quando estávamos na graduação e ainda fazíamos as mesmas disciplinas, nós dois conhecíamos as mesmas pessoas, então não havia grande ocorrência de encontros com pseudo-conhecidos. Porém, quando começamos a fazer umas disciplinas separados, as indagações diante dos encontros aleatórios com olhares indisfarçados eram as seguintes:

  • Será que estou sujo/mal vestido hoje?
  • Será que me vesti bem demais hoje?
  • Será que essa pessoa do sexo oposto está flertando comigo? (“até que é bonitinha…“)
  • Será que essa pessoa do sexo oposto conhece meu irmão e está flertando com ele na minha pessoa? (“até que é bonitinha… será que meu irmão não quer me apresentá-la? “)
  • Será que essa pessoa do mesmo sexo está flertando comigo? (“Aiai.. não é comigo, não é comigo… tomara que também não seja com meu irmão…”).

Depois do breve encontro (que você terminou respondendo com uma mistura esquisita de desconfiança e civilidade), cada um segue seu caminho normalmente, se não tiver sido travada uma conversa ou se não se tiver mencionado nome algum.

Ah… e a cruel curiosidade? “Quem era aquela pessoa?” – “Ah… deve conhecer meu irmão!” E você continua seu dia sem uma dúvida crucial que poderia ter mantido sua mente ocupada por horas e horas e atrapalhado sua eficiência no trabalho (ou ajudado a passar as horas de tédio e ócio…).

Talvez no futuro eu (ou meu irmão) aprofunde um pouco mais o tema da relação entre um gêmeo e os amigos do outro que não são tão amigos dele.

Desvantagem 1 : Falta de assunto para conversar

Um dos grandes problemas em se ter um irmão gêmeo muito parecido psicologicamente com você e que tenha os mesmos gostos, assista os mesmos programas, conheça as mesmas pessoas e tenha praticamente o mesmo passado é a enfadonha falta de assunto para conversar: até o vil ato de reclamar da vida é enfadonho, pois as queixas são praticamente as mesmas.

-Que droga de prova fiz hoje… o professor Beltrano cobrou isso e aquilo…

-Eu sei. Também fiz a prova.

ou

-Hoje, aconteceu uma coisa engraçada na aula de pular amarelinha: o Jão [e o outro corta:]

-Hehehe… eu vi! Eu também estava lá!

E assim seguem longas seqüências de conversas formadas por meias-frases [falaremos sobre a "Telepatia dos gêmeos num outro post". Talvez].

As maiores mudanças acontecem dentro de cada um. Mas nem sempre se deseja (ou se pode) abrir o coração… nem mesmo para o irmão gêmeo (às vezes, muito menos para ele). Mas isso é tema para um outro post.

Uma coisa é certa: agora, a gente terá muito mais assuntos para conversar. E muito menos tempo. C’est la vie…