11
Fev
09

Assimetrias

Este post poderia tratar da função exponencial, que é assimétrica qualquer que seja o ponto de referência tomado e não se sai muito bem numa festa porque dá no mesmo se integrar ou não [o pessoal da área de exatas há de entender...]

Ou poderia tratar de qualquer outra coisa encontrada na natureza: desde as flores de quaresmeira e as pedras ornamentais até as corujas do ártico e o vizinho do lado (que, diga-se de passagem, ainda não conheci depois de me mudar para a nova república – e talvez nem venha a conhecê-lo).

Ou poderia tratar de irmãos gêmeos.

Mas não faz diferença o exemplo que eu tomar, pois o mundo É assimétrico (e não simétrico nem anti-simétrico). Ponto. [Obviamente, construções teóricas e o aspecto macroscópico de alguns construtos podem ser simétricos - não sou tão cego ou obstinado a ponto de não reconhecê-lo].
E, conforme sugeri no post do dia  07 de fevereiro (embora não o tenha explicitado), as relações humanas também são assimétricas. Acredito que os motivos dessa assimetria são muito simples:

  • Pessoas são diferentes;
  • Pessoas conhecem outras pessoas além de você;
  • Pessoas têm histórias distintas;
  • Etc.

É óbvio, portanto, que não podemos exigir dos outros o mesmo que lhes damos. Na verdade, numa relação qualquer, só podemos exigir dos outros o mínimo necessário para que, de fato, exista uma relação;

Mesmo a relação existente entre um baleeiro esquimó e um guarda de fronteira da Coréia do Norte é assimétrica: quem sabe que tipo de postura cada um tem em relação ao resto do mundo? Talvez um deles evite jogar lixo no chão achando que, com isso, vai ajudar a diminuir o tão falado efeito estufa [cujos efeitos não serão alvo de discussão nesse blog] e, assim, impedir o derretimento do Ártico.

Será que o esquimó faria alguma coisa pelo guarda norte-coreano? E o contrário, ocorreria? E você, faria algo por algum dos dois? Em troca de que?

Agora, levando a assimetria ao nível metafísico (admito que meu conhecimento teológico é apenas o bastante para me acusarem de praticar teologia de bar):

E para Deus, você faria alguma coisa? Isso faria alguma diferença para Ele?

Acho que a resposta para a segunda questão é não, e a razão é simples: a relação entre Deus e o homem é plenamente assimétrica. Explico (ou tento):

  • Deus é infinito (isso é uma simplificação dos atributos divinos);
  • O homem é finito;
  • Todos os dons que temos, e que também são finitos, vieram de Deus;
  • Logo, o que temos para oferecer a Deus já pertence a Ele.
  • Então Ele não precisa de nós!

Devemos, portanto, ignorar a Deus porque Ele não precisa de nós? Acho que não, pois Ele quis nos criar mesmo sem precisar. Para que pudéssemos participar de seu Amor.

Creio que a chave para aceitar as assimetrias está justamente no Amor. Como imagem e semelhança, também somos chamados a esbanjar prodigamente o Amor nas nossas retas relações, mesmo que não sejamos correspondidos.

Mas será que somos capazes de amar sem esperar nada em troca? Embora imagem e semelhança, nossa generosidade não é infinita e uma hora terminaremos por nos perguntar “O que estou ganhando com isso?”.

Às vezes, os ganhos não são imediatamente perceptíveis e parecem meio enterrados por uma camada de desilusão. Mas estão lá: na forma de virtude ou de aprendizado.

Que tal procurar uma pá?


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