[Post originalmente publicado em 11 de novembro de 2007 no blog Cronicamenteexponencial]
Passei a última semana em São Paulo, participando de uma oficina sobre Gerenciamento de Risco e Segurança em Saúde e do III Congresso Brasileiro de Engenharia Clínica (pode-se dizer que este foi uma espécie de continuação daquele – até porque foram planejados para isso mesmo).
Os eventos foram muito bons, mas intenção deste post não é falar sobre eles, mas sobre a semana da minha cabeça em São Paulo (ou alma, ou coração, ou os três – ainda tenho que sistematizar meu entendimento sobre essas realidades).
Junto com minha bagagem, levei o livro A Descoberta do Outro, de Gustavo Corção, que já estava na metade exata das páginas. Não vou escrever uma resenha sobre o livro (até porque ainda não tenho habilidade para tal – e talvez nunca a tenha), mas devo dizer que houve uma espécie de sinergia entre a leitura de algumas partes do livro e minha translação pela capital paulista.
Depois da terça-feira, enquanto tomava o ônibus para a casa da minha tia (onde estava hospedado) – talvez sob influência do livro, e também em decorrência de vários pensamentos sobre os quais não covém escrever aqui (não agora… talvez nunca) – eu decidi observar as pessoas que eu encontrava durante meus deslocamentos em São Paulo. Percebi o óbvio de que cada pessoa era diferente da outra, mas junto com o óbvio também me vieram alguns pensamentos ou percepções específicas. Deixo aqui dois deles:
- Encontrei/vi vários olhos que pareciam dizer “Como estou cansado…”: em alguns deles, principalmente nos fins de dia, dava para ver que o cansaço era fadiga mesmo, mas alguns olhos deixavam entrever uma espécie de fadiga espiritual (serão os olhos realmente janelas da alma?) e seus donos pareciam buscar algo que não encontravam no dia-a-dia. Acho que era o mesmo olhar que eu mesmo já devo ter visto várias vezes no espelho e que só a Graça me impede de encontrar todos os dias. Foi muito útil para eu perceber que o outro, que eu nunca conhecerei, também tem problemas que eu nunca conhecerei e que, afinal, meus problemas não são o fim do mundo (principalmente porque o mundo, como me fez perceber Corção, não é uma sombra de meu interior);
- Na terça, vi uma rapaz de aparência ordinária (assim como eu) cochilando de boca aberta no ônibus e fiquei a pensar sobre a vulnerabilidade que o cansaço nos traz, e que nos leva mesmo a cochilar de boca aberta no meio de um monte de estranhos – me pareceu bastante desconcertante e eu parei de olhar o rapaz cochilando de boca aberta. No dia seguinte (ou na quinta – não me lembro direito), eu peguei o mesmo ônibus e vi uma garota muito bonita com olhos do tipo “estou cansada e fatigada” que me fizeram desviar o olhar com receio de transformá-los no tipo “o que você está olhando? ninguém pode ficar cansado em paz?”… um tempo depois, olhei de novo para ela e percebi que ela estava cochilando com a boca aberta – eu até tentei, mas não pude evitar a íntima constatação de que cochilar com a boca aberta num ônibus é desconcertante mesmo em uma bela garota.
Como vou devolver A descoberta do outro amanhã, deixo aqui uma pequena citação do livro:
“A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão.”
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