11
fev
11

Indiviso

Suplico com receio
Meio de improviso
Aquilo a que anseio:
O coração indiviso.

Eu já não quero ser
Tão livre e indeciso
Prefiro padecer
D’O coração indiviso

Arrancai-me o siso
Ou somente o riso
Súbito, sem aviso.

Porém, sem prejuízo,
Dai-me o que preciso:
O coração indiviso.

25
dez
10

No Presépio

No Presépio

Quando vosso Tudo
Encontra nosso nada
O mundo, mudo
A gente, atordoada

Contempla, perplexa,
A face da Caridade
Realidade complexa
E tal simplicidade

Bebê benquisto
De Deus, o Cristo
Na gruta esquecida

Uma ovelhinha sorri
Pois ao Autor da vida
Aprouve nascer ali.

Feliz Natal!

11
fev
10

Dias de trovão

Declara o vilão, lá pelo finalzinho do filme:

“Do you know what the scariest thing is? To not know your place in this world, to not know why you’re here.”

["Sabe qual é a coisa mais assustadora? Não saber qual o seu lugar neste mundo, não saber por que você está aqui."]

O que eu posso dizer? Ele está quase certo: a falta de um objetivo específico para a vida traz mesmo momentos de perplexidade que nem os genéricos (ainda que verdadeiros) “viva uma vida virtuosa” ou “seja santo” conseguem eliminar completamente.

Aos que vislumbraram claramente um sentido e descobriram seus lugares, só posso dizer: “façam por merecer”.

Aos que escavam as paredes de  seus corações e das suas almas com martelos e picaretas em busca de um desejo para o futuro: “A cada dia basta seu cuidado” ou “continue caminhando, pois talvez objetivo seja como amor ou cocô de pombo: quando você menos espera…”

[feliz aniversário, Srta. Violeta]

24
dez
09

Deixe o Menino entrar…

Hoje é A Véspera…

Nessa época, os cristãos de todo o mundo esperam para celebrar o nascimento de seu Deus; alguns não-cristãos, por influência – às vezes, inconsciente – dos primeiros, celebram os bons sentimentos que “se espalham pelo ar”.

É um evento sempre desafiador… fazer uma dura (ainda que imperfeita) limpeza na casa (purgação) para abrir espaço para o Menino nascer.

Ele não precisa de um palácio etéreo e asséptico, afinal, decidiu nascer numa manjedoura suja e pobre, cercado por animais e marginais, quando se fez homem.

Miremos agora os corações dos homens: muitas vezes se encontram sujos, pobres e cheios de animais (que são as paixões desordenadas) … como uma manjedoura!

Não precisamos ser perfeitos para recebê-Lo… tudo o que precisamos fazer é abrir espaço. E deixar o Menino agir depois que nascer.

Feliz Aniversário, Deus!

Feliz Natal, pessoal!

23
jun
09

Outro acaso? (ou “455nm ≤ λ ≤ 492nm”)

Nunca mais te amarei assim
Com o coração palpitante
Como oração suplicante
Que se reza diante do fim

Te amarei como a uma santa
Dessas que sustentam andores
Junto às quais a Igreja canta
Ao bom Deus, eternos louvores

Apostarei alto na tua santidade
E farei ao Pai pedidos tantos
que meu anjo te prestará favores

E calarei coração e vontade
E buscarei a Comunhão  dos Santos
À qual anseiamos os pecadores

* * *

Mas não me esquecerei da vela que
Quase diariamente estivera entre
Meus olhos e os teus

Sobre o local santo onde ainda
Vislumbro o Centro da História e um
Desencanto ligeiro e fecundo.
.
28
fev
09

Apenas um acaso ordinário (ou Às quaresmeiras do Barão)

Nunca mais te amarei assim
Com o coração palpitante
Como oração suplicante
Que se reza diante do fim

Te amarei como a uma santa
Dessas que sustentam andores
Junto às quais a Igreja canta
Ao bom Deus, eternos louvores

Apostarei alto na tua santidade
E farei ao Pai pedidos tantos
que meu anjo te prestará favores

E calarei coração e vontade
E buscarei a Comunhão  dos Santos
À qual anseiamos os pecadores
* * *
Mas sempre haverá abraços de vento
Para celebrar a felicidade dos dias tristes
E aliviar a aridez dos sorrisos rasos

Nisto, entenderei que
“o Amor não procura seu próprio interesse”
(ou, pelo menos, tentarei).
19
fev
09

Let the right star in

Vi, recentemente, dois filmes com o cliché “garoto encontra garota”: “Stardust – O Mistério da Estrela” e “Let the right one in” (acho que o nome que apareceu num festival brasileiro foi “Deixe ela entrar”, mas vou me referir ao filme como LTROI).

[CUIDADO! ESTE POST CONTÉM SPOILERS SOBRE OS FILMES]

Em Stardust, Tristan, um rapaz de aldeia de conto de fadas e que não conheceu a mãe, vê uma estrela cair numa terra proibida e promete trazê-la à moça mais bela das redondezas, Victoria, se ela se casar com ele. Em LTROI, um garoto, Oskar, filho de pais separados e constantemente agredido pelos colegas de escola conhece uma garota, Eli, que se muda para seu prédio.

Victoria não dá a mínima atenção ao infeliz Tristan, que parece estar apaixonado só pela aparência dela (ela, por sua vez, parece ter uma personalidade rasa como um pires de café); a estrela que Tristan vai buscar é lindamente antropomórfica e  se chama Yvaine, mas é teimosa e rabugenta e não gosta muito da idéia de ser arrastada como um troféu até a Vila do Muro.

Oskar tem 12 anos, nenhum amigo e vários problemas de agressividade reprimida; Eli tem 12 anos, como Oskar, mas faz muito mais tempo que ela parou nessa idade…

Em Stardust, Tristan tem que passar por maus bocados, pois há várias pessoas interessadas no coração de Yvaine (literalmente) e ele demora até descobrir o que significa o brilho que ela irradia na sua presença (apesar de um pouco extrapolado, acho que o filme me ajudou a entender melhor o que seria o tal “brilho no olhar” que serve como indicador de viabilidade de um relacionamento – embora eu ache que esse indicador é superestimado e pode ser superado por saudável convivência ordinária).

Em LTROI, Eli ensina a Oskar que ele deve bater de volta e mais forte ainda em seus agressores. Apesar de ser, perceptivelmente, uma má influência para o garoto, percebe-se, durante o filme, que ela  faz todo o possível para fazer a relação  funcionar:  aceita um doce que  ele lhe oferece, apesar de saber que vai lhe causar mal e  até mesmo cede à provocação de acompanhar Oskar à casa dele sem que ele lhe convide formalmente, mesmo sabendo que isso lhe causaria hemorragia por todo o corpo – a propósito: eu já disse que Eli é uma vampira?

O fato de Yvaine ser, literalmente, uma estrela e Eli, uma vampira, não tem muita importância para esse post, pois o que me chamou a atenção mesmo foram as dificuldades de relacionamento levantadas pelos filmes.

Tristan estava apaixonado por uma idéia (Victoria), e precisou conhecer uma pessoa real – ainda que a pessoa real fosse uma estrela cadente – para descobrir o que realmente importa num relacionamento. Talvez ele chegasse um dia a descobrir que Victoria também era real, mas acho que os dois estavam interessados em coisas distintas demais para que chegassem a realmente se conhecer.

Oskar, por sua vez, encontrou alguém que parecia amá-lo realmente e se esforçava para fazer o relacionamento funcionar, e ele correspondeu a esse amor, mas… a que custo? Não me parece uma boa idéia prender-se a alguém que nunca vai amadurecer a seu lado: ou você também deixa de amadurecer ou então tenta escapar, para poder crescer…  mas será que aquela que se esforçou tanto para que você a deixasse entrar permitirá que você saia tão facilmente?

E se o pobre Tristan, depois de conhecer Yvaine e se apaixonar por ela, finalmente compreendesse, racionalmente, que seu lugar não era mesmo ao lado de Victoria, mas terminasse descobrindo que Yvaine não queria saber dele? Será que, depois da desilusão ele deixaria qualquer uma entrar? Será que se trancaria no castelo em Stormhold?

Não sei. Mas, se eu pudesse dizer algo a Tristan numa situação dessas, apenas diria: “Ânimo, rapaz! Você é herdeiro da realeza! Há de encontrar alguém que corresponda às suas nobres intenções!”

Hmmm… será que Tristan é realmente tão nobre assim?

11
fev
09

Assimetrias

Este post poderia tratar da função exponencial, que é assimétrica qualquer que seja o ponto de referência tomado e não se sai muito bem numa festa porque dá no mesmo se integrar ou não [o pessoal da área de exatas há de entender...]

Ou poderia tratar de qualquer outra coisa encontrada na natureza: desde as flores de quaresmeira e as pedras ornamentais até as corujas do ártico e o vizinho do lado (que, diga-se de passagem, ainda não conheci depois de me mudar para a nova república – e talvez nem venha a conhecê-lo).

Ou poderia tratar de irmãos gêmeos.

Mas não faz diferença o exemplo que eu tomar, pois o mundo É assimétrico (e não simétrico nem anti-simétrico). Ponto. [Obviamente, construções teóricas e o aspecto macroscópico de alguns construtos podem ser simétricos - não sou tão cego ou obstinado a ponto de não reconhecê-lo].
E, conforme sugeri no post do dia  07 de fevereiro (embora não o tenha explicitado), as relações humanas também são assimétricas. Acredito que os motivos dessa assimetria são muito simples:

  • Pessoas são diferentes;
  • Pessoas conhecem outras pessoas além de você;
  • Pessoas têm histórias distintas;
  • Etc.

É óbvio, portanto, que não podemos exigir dos outros o mesmo que lhes damos. Na verdade, numa relação qualquer, só podemos exigir dos outros o mínimo necessário para que, de fato, exista uma relação;

Mesmo a relação existente entre um baleeiro esquimó e um guarda de fronteira da Coréia do Norte é assimétrica: quem sabe que tipo de postura cada um tem em relação ao resto do mundo? Talvez um deles evite jogar lixo no chão achando que, com isso, vai ajudar a diminuir o tão falado efeito estufa [cujos efeitos não serão alvo de discussão nesse blog] e, assim, impedir o derretimento do Ártico.

Será que o esquimó faria alguma coisa pelo guarda norte-coreano? E o contrário, ocorreria? E você, faria algo por algum dos dois? Em troca de que?

Agora, levando a assimetria ao nível metafísico (admito que meu conhecimento teológico é apenas o bastante para me acusarem de praticar teologia de bar):

E para Deus, você faria alguma coisa? Isso faria alguma diferença para Ele?

Acho que a resposta para a segunda questão é não, e a razão é simples: a relação entre Deus e o homem é plenamente assimétrica. Explico (ou tento):

  • Deus é infinito (isso é uma simplificação dos atributos divinos);
  • O homem é finito;
  • Todos os dons que temos, e que também são finitos, vieram de Deus;
  • Logo, o que temos para oferecer a Deus já pertence a Ele.
  • Então Ele não precisa de nós!

Devemos, portanto, ignorar a Deus porque Ele não precisa de nós? Acho que não, pois Ele quis nos criar mesmo sem precisar. Para que pudéssemos participar de seu Amor.

Creio que a chave para aceitar as assimetrias está justamente no Amor. Como imagem e semelhança, também somos chamados a esbanjar prodigamente o Amor nas nossas retas relações, mesmo que não sejamos correspondidos.

Mas será que somos capazes de amar sem esperar nada em troca? Embora imagem e semelhança, nossa generosidade não é infinita e uma hora terminaremos por nos perguntar “O que estou ganhando com isso?”.

Às vezes, os ganhos não são imediatamente perceptíveis e parecem meio enterrados por uma camada de desilusão. Mas estão lá: na forma de virtude ou de aprendizado.

Que tal procurar uma pá?

07
fev
09

Love will tear us apart

Volto a postar com a última frase do post “Uma semana em São Paulo com Gustavo Corção”

“A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão.”

Essa frase me levou a pensar um pouco no que consiste reconhecer em cada pessoa um outro (ou próximo). Lá vão as breves considerações:

1. Será que descobrir o outro consiste em simplesmente respeitar o espaço de cada um?

Parece-me razoável supor que parar de tratar os demais como uma extensão de nós mesmos é um passo fundamental para chegar ao outro: todo o mundo quer ser ouvido quando fala alguma coisa, por mais boba que pareça (ou por mais boba que seja mesmo) – o problema é que ouvir implica prestar atenção ao que o outro diz e estabelecer com ele um diálogo ao invés do acordo tácito em estabelecer dois monólogos que tanto ocorre nos dias de hoje (e talvez nos dias de ontem também) [Nota: essa idéia foi tomada de uma pessoa bem mais sábia que eu, mas não me lembro mais quem foi que disse].

Talvez respeitar o espaço do outro consista em deixá-lo em paz, lá no canto dele… em alguns casos, é isso mesmo! Mas… e se o outro visivelmente precisar de algum tipo de auxílio e, por algum motivo (que pode ir do orgulho à sua irmã, a vergonha), não conseguir pedir?

2. Descobrir o outro seria o mesmo que desejar seu crescimento e fazer o possível para ajudá-lo?

Mais uma suposição que me parece razoável: se eu ajudo o outro, estou sendo seu próximo! (ou o tornando o meu próximo). O problema em ajudar o outro é que ele nem sempre retribui com o reconhecimento. Muitas vezes, o outro nem perceberá que foi ajudado, ou pior: reconhecerá que foi ajudado, mas dirá, na hora de uma desavença qualquer, que “não pediu ajuda de ninguém e que podia ter saído sozinho daquele poço de areia movediça!”… Nessas horas, deve doer um bocado ver essa criatura ingrata se voltar contra aquele que a ajudou a se tornar melhor.

Talvez uma boa intenção não seja o suficiente para poder dar uma ajuda sincera – pelo menos não sem a disposição necessária para ajudar sem esperar nada em troca.

3. Será que sacrificar-se pelo outro é o caminho de sua descoberta?

Hmmmm… qual a diferença entre ajudar o outro e sacrificar-se por ele? Segundo eu mesmo, neste ponto em particular, a ajuda implica dívida, mesmo que subentendida, pois a disposição interior do que ajuda é a de se lembrar que fez algo pelo outro. Daí surgem pensamentos do tipo “Ah… eu fiz tanto por fulano! Será que ele não reconhece?“. Acho que já sabemos onde esse tipo de postura leva as pessoas…

Em minha opinião (e é disto que se trata esse blog), o sacrifício seria o quilômetro a mais que se anda com o outro quando este só lhe pede um. Nesse caso, o próprio indivíduo que ajuda já pagaria a dívida da ajuda a si mesmo. Mas pagar como? Com o que? E onde fica a justiça?

Talvez a resposta seja o Amor.

E o Luís escreveu sobre isso um dia desses.

(por falar nisso: Feliz Aniversário, Luís!)

17
jan
09

Uma semana em São Paulo com Gustavo Corção

[Post originalmente publicado em 11 de novembro de 2007 no blog Cronicamenteexponencial]

Passei a última semana em São Paulo, participando de uma oficina sobre Gerenciamento de Risco e Segurança em Saúde e do III Congresso Brasileiro de Engenharia Clínica (pode-se dizer que este foi uma espécie de continuação daquele – até porque foram planejados para isso mesmo).

Os eventos foram muito bons, mas intenção deste post não é falar sobre eles, mas sobre a semana da minha cabeça em São Paulo (ou alma, ou coração, ou os três – ainda tenho que sistematizar meu entendimento sobre essas realidades).

Junto com minha bagagem, levei o livro A Descoberta do Outro, de Gustavo Corção, que já estava na metade exata das páginas. Não vou escrever uma resenha sobre o livro (até porque ainda não tenho habilidade para tal – e talvez nunca a tenha), mas devo dizer que houve uma espécie de sinergia entre a leitura de algumas partes do livro e minha translação pela capital paulista.

Depois da terça-feira, enquanto tomava o ônibus para a casa da minha tia (onde estava hospedado) – talvez sob influência do livro, e também em decorrência de vários pensamentos sobre os quais não covém escrever aqui (não agora… talvez nunca) – eu decidi observar as pessoas que eu encontrava durante meus deslocamentos em São Paulo. Percebi o óbvio de que cada pessoa era diferente da outra, mas junto com o óbvio também me vieram alguns pensamentos ou percepções específicas. Deixo aqui dois deles:

  1. Encontrei/vi vários olhos que pareciam dizer “Como estou cansado…”: em alguns deles, principalmente nos fins de dia, dava para ver que o cansaço era fadiga mesmo, mas alguns olhos deixavam entrever uma espécie de fadiga espiritual (serão os olhos realmente janelas da alma?) e seus donos pareciam buscar algo que não encontravam no dia-a-dia. Acho que era o mesmo olhar que eu mesmo já devo ter visto várias vezes no espelho e que só a Graça me impede de encontrar todos os dias. Foi muito útil para eu perceber que o outro, que eu nunca conhecerei, também tem problemas que eu nunca conhecerei e que, afinal, meus problemas não são o fim do mundo (principalmente porque o mundo, como me fez perceber Corção, não é uma sombra de meu interior);
  2. Na terça, vi uma rapaz de aparência ordinária (assim como eu) cochilando de boca aberta no ônibus e fiquei a pensar sobre a vulnerabilidade que o cansaço nos traz, e que nos leva mesmo a cochilar de boca aberta no meio de um monte de estranhos – me pareceu bastante desconcertante e eu parei de olhar o rapaz cochilando de boca aberta. No dia seguinte (ou na quinta – não me lembro direito), eu peguei o mesmo ônibus e vi uma garota muito bonita com olhos do tipo “estou cansada e fatigada” que me fizeram desviar o olhar com receio de transformá-los no tipo “o que você está olhando? ninguém pode ficar cansado em paz?”… um tempo depois, olhei de novo para ela e percebi que ela estava cochilando com a boca aberta – eu até tentei, mas não pude evitar a íntima constatação de que cochilar com a boca aberta num ônibus é desconcertante mesmo em uma bela garota.

Como vou devolver A descoberta do outro amanhã, deixo aqui uma pequena citação do livro:

“A luz da Caridade opera uma separação; põe-nos diante do outro. Separa-nos para nos livrar da insuportável solidão.”




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